Artes, negócios, diversão e comportamento.

Você se sente superior ou inferior?

Como as palavras e frases que dizemos dizem respeito ao ser humano que somos, por Mauro Henrique Toledo.

Ah, 2015, queria começar de novo e mudar a história. Logo de início, nosso amigo e amado mestre de teatro e dramaturgia Chico de Assis parte para fora do combinado. Tristezaça minha, de Alzira e dos que aprenderam com sua humanidade, amor pela vida e teatro, generosidade, inteligência e qualidades de caráter que me faltam palavras. E em seguida minha sogra deu-nos um susto, teve um “acidente” como ela diz brincante, quebrou o fêmur e requer cuidados que movimentam todo o sistema co-operativo familiar. Já fez cirurgia, passa bem e se prepara para a São Silvestre. Assim é a vida e seus acontecimentos trágicos e não tão trágicos; vida em seu fluir imponderável, que nos impõe refletir sobre o que realmente dá sentido ao nosso existir. Gratidão pelos momentos felizes, força e amor para aceitar o que não pode ser mudado e coragem para mudar as que devem ser mudadas. E como diz o poeta: “E la nave va”.

É comum em hospitais encontrar pessoas com emoções à flor da pele e sendo eu pessoa que gosta de conhecer e escutar pessoas e suas histórias, narro história que me comoveu ao tomar café com pai de paciente no bar do hospital. Contou-me ele da operação de seu filho de nove anos, duas cirurgias no coração e o quanto é difícil sossegar criança em recuperação. Porém, me chamou especial atenção quando ele quis saber qual era a minha profissão. Falei da Teatrês, do Teatro Coach, de nosso curso para executivos, da importância da comunicação para o ambiente das relações sociais e profissionais e parei por aí, já me controlando para não virar conversação de venda, mas …

… ele continuou interessado em nosso curso de Falar em Público, agora já possível cliente e perguntou: – Vocês aceitam qualquer pessoa no curso de vocês? Não entendi a colocação e lhe devolvi: “- Como assim, qualquer pessoa? E ele: – “Por exemplo, vocês devem dar aulas para diretores, gente pós graduada, será que aceitam pessoas inferiores assim como eu?” (          ). Pausa, caros e caras. Respirei fundo e exploramos juntos as várias interpretações sobre tal expressão “depreciativa” e suas implicações para as relações sociais profissionais. Nos demos por satisfeitos com a conversa relevante, com possível inscrição dele em nosso programa de aprendizagem que não faz distinção entre seres inferiores e superiores, sejam eles pós graduados ou não. Bem-vindos, todos e todas. 

Porém, fiquei com a reflexão deste encontro na mente, pois sei que julgamentos e preconceitos sobre ser humano superior ou inferior costumam causar grandes estragos na autoestima e na autoconfiança. Essa expressão “Será que vocês aceitam pessoas inferiores assim como eu” faz parte de um vasto repertório de frases depreciativas que alimentam crenças limitantes e desestimulam ações para transformar-se a si e aos contextos na vida. É comum ouvir frases deste tipo, como:

- “Não tenho mais idade para isso”;

- “A vida nunca facilita as coisas, por isso desisto”;

- “Deus esqueceu de mim”;

- “O sol não nasce pra todos”;

- “Os culpados são meus pais por não me darem condições”;

- “Nada dá certo porque as pessoas tem inveja de mim, isso é olho gordo”.

- “Eu não nasci para ser vencedor”;

- “Nesta cidade não dá nada certo”;

E a pior de todas – “Eu já nasci cagado”.

Sim, já ouvi isso. Lixo, meus caros e caras, lixo descartável com possibilidade de reciclagem. Se algum dia lhe vierem à cabeça frases assim, estranhe-as, não as aceite, conteste-as, investigue-as, procure saber de onde vieram. Muito provavelmente são frases e crenças assimiladas por contatos com outras pessoas, em outros tempos, outros ambientes, outras relações sociais que o fizeram e o fazem ser a pessoa que você é hoje.

Livre-se destas expressões, liberte-se destas frases alienantes e desestimulantes. São lixo que você pode descartar e não mais usar, bastando para isso ficar atento às suas próprias palavras. Escute-se. Atenção a si e ao que você diz. Nós moramos em nossa linguagem. Palavras não são palavras, nada mais que palavras. Palavra também é ação, ou a falta de ação. 

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