Artes, negócios, diversão e comportamento.

Saúde mental? O valor da literatura.

Meu amigo poeta, escritor e letrista Caio Junqueira Maciel escreve sobre a importância da literatura no mundo de todos os tempos, em seu brilhante artigo “Literatura Necessária”.

Na mitologia grega, Mnemósine, a Memória, é a mãe das musas. Ou seja: a arte, todas as artes, notadamente a literatura, é filha da memória. E o que é a memória senão o resgate do tempo, o resgate do homem? Daí a necessidade da literatura, da arte que se esculpe em palavras e inscreve o homem no tempo, o homem de todos os tempos.

Qualquer conversa sobre a importância da literatura, a relevância da leitura e a apologia ao livro tem de partir dos gregos, de Homero, da Odisséia, com as proezas de Ulisses, e Ilíada, o cerco de Troia e a ira de Aquiles contra os próprios gregos e depois contra os troianos. Nos textos de Homero ficaram gravados caminhos e descaminhos da humanidade, e hoje tais textos são retomados, filmados, absorvidos, transformados. O cinema conta a história da odisséia no espaço. Que não deixa de fazer reverência ao que Homero criou. As navegações de Odisseu ou Ulisses, as navegações de Vasco da Gama, imortalizado no poema de Camões, as navegações de um adolescente pela internet – tudo isso são processos de descoberta e a palavra é e pode ser ainda mais um porto seguro.

Muitos afirmam que a internet iria acabar com a literatura. Assim como falaram que a TV iria matar o cinema. A internet pode levar o jovem para o conhecimento profundo da literatura, que não morre nunca, mas se revitaliza nos livros eletrônicos. O importante é não perder de vista a palavra e sua ampla possibilidade de recriar mundos, combater o caos e auxiliar na compreensão do humano – o que, de fato, é o que mais importa. Lemos para compreender mais o humano, descobrir os reinos que se escondem em nosso próprio eu e partir para a sublime aventura de se descobrir o outro, seja ele nosso vizinho, o africano, o esquimó, o punk.

A literatura, em seus mais variados gêneros, nos impulsiona para a luta contra a morte, não apenas a morte como a Indesejada das Gentes de que fala Manuel Bandeira, mas a morte que se insinua na vidinha ordinária e medíocre, que nos afasta de todo o tipo de invenção, de poesia, de disponibilidade para a beleza. O livro é e deve continuar sendo, mesmo em suas formas mais sofisticadas, o amigo, o companheiro, o motor contínuo que proporciona vitalidade ao pensamento e não deixa com que a alma se enferruje. Passaporte mais barato e sereno para as mais distintas paragens do universo, o livro nos leva para longe sem que deixemos a nossa casa. Aliás, o livro é o sagrado lugar de muitas moradas.

Abro, por exemplo, uma página do espantoso e colossal romance 2666, de Roberto Bolaño, e me vejo em pleno deserto mexicano, entre pedras de formações graníticas e vulcânicas, cujos picos se silhuetavam no céu com forma e maneiras de pássaros, mas pássaros de dor. O cinema pode mostrar essa cena, mas a imagem, a metáfora, essa vai direto do escritor para o leitor, sem que careça de auxílio de efeitos especiais. Tudo bem que exista o cinema e a internet, que ampliam o papel do livro, mas nunca vamos deixar o livro de lado, o livro que serviu para o nosso carioca Lima Barreto defender-se das injustiças de seu tempo. Lima Barreto, com seu quixotesco Policarpo Quaresma, é um ícone de nossa literatura e foi com ele que aprendemos que a indignação, a revolta, o protesto contra os podres poderes precisam de penas afiadas, páginas repletas de crítica, mas sem perder a ternura jamais, como diria o argentino Guevara, que sempre soube que a palavra escrita é a companheira do homem em todas suas conquistas e caminhadas.

Voltemos ao início: Mnemósine, mãe-memória, está protegendo os que se valem dos livros e dos emails, dos antigos folhetins aos e-books, a todos enfim que navegam e negam a inércia, a mesmice, a vidinha ordinária que é similar à pior das mortes. Que os jovens conheçam melhor Homero e Lima Barreto, cavalguem com Dom Quixote e percebam as manhas de Dom Casmurro; que entrem na poesia de Bandeira, de Drummond e de Manoel de Barros; perambulem pelas ficções do chileno Roberto Bolaño ou do magnífico Cormac McCarthy (sobretudo Meridiano de sangue), como nas veredas do Grande sertão e pelas ruas e becos dos desvalidos da obra de João Antônio, autor de Malagueta, Perus e Bacanaço. Que a internet traga textos verídicos de Veríssimo e desperte no jovem um olhar crítico e criativo sobre tudo. Que a memória, mãe e montanha, não nos deixe cair em alienação.

Caio Junqueira Maciel é professor e escritor. Autor de livros didáticos de literatura, tem parceria em vários cds como letrista e autor dos livros de poemas: Sonetos dissonantes, Felizes os convidados, Doismaisdoido é igual ao vento, Era uma voz: sonetos só pra netos. Publicou textos nas antologias Jovens contos eróticos (ed.Brasiliense); Coletivo 21 (Autêntica) e Adolescência & Cia (Miguilim), a ler lançado brevemente

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