Artes, negócios, diversão e comportamento.

A atriz Denise Del Vecchio em grande desempenho!

Leia crítica de Jefferson Del Rios no Estadão da peça que mostra o cotidiano absurdo dos espiões e delatores e a profissão de vigiar a vida dos outros.

A impressionante interpretação de Denise Del Vecchio como um ser humano incolor até se revelar implacável espiã, tema de Circuito Ordinário, de Jean- Claude Carrière, faz lembrar que essa foi quase sempre atividade masculina. As exceções são romanescas ou decorrem de fatos nebulosos como o de Mata Hari, acusada de agente da Alemanha e fuzilada na França durante a Primeira Guerra Mundial. O dramaturgo não está interessado em situações implausíveis, mas na espionagem que impõe a paranoia no cotidiano das pessoas. Seu enredo diz respeito tanto à opressão oficial da KGB russa, a PIDE, em Portugal, a CIA no mundo, o nosso SNI da ditadura, como também à cooptação de civis propensos, ou coagidos, à delação.

Em um âmbito menos político, o francês Carrière pode até ter se inspirado na figura da “concierge”, a zeladora, instituição nacional do seu país. Se objetivamente são mais chatas do que outra coisa, fica insinuado que tédio ou ressentimento gerados por existências desimportantes podem ser úteis no controle da população. O dramaturgo, contudo, é um artista marcadamente ideológico e veio para dizer que, sim, todos os governos, regimes, movimentos ditos revolucionários e religiões tendem a se intrometer nas nossas vidas. Não importam as proclamadas melhores intenções, artificiosa brandura (o “Leão” do IR), tiradas patrióticas dos “comitês de defesa da revolução”, a vigilância pela pureza partidária ou da fé, o recado é para se manter atento às armadilhas no caminho das liberdades.

No denso espetáculo dirigido por Otávio Martins, elas afloram na quase inacreditável conversa entre a mulher-espiã e o superior. Ele teria detectado alguma falha no serviço, e ela precisa viabilizar o inexplicável, o absurdo. Ambos são assombrações do universo autoritário que se defrontam em um ambiente carcerário (metais sugerem grades) de alta tecnologia (câmeras, microfones). O título Circuito Ordinário em português é vago ou parece xingamento. No original significa comum, rotineiro. Esses funcionários são banais e medonhos em todas as épocas, como os “bufos” (dedos-duros) dos 48 anos de Salazarismo, muitos “serenos”, os guardas-noturnos do generalíssimo Franco, e todos os olhos do stalinismo encarnados de forma extraordinária pelo ator Ulrich Mühe no filme A Vida dos Outros.

Essa gente miúda da cadeia da repressão em alguns casos carrega fantasias de poder e onipotência. O tiranete da esquina é o centro das atenções de Carrière. O nome vago da obra não impede Otávio Martins de construir um bom espetáculo ao esticar ao máximo a tensão dramática no interior de um aparato cênico inquietante formado pelo cenário, som e iluminação que sintetizam os “porões da ditadura”. Nesse minueto de dissimulações e cinismo, dois intérpretes em perfeita adequação estabelecem um clima entre teatro de marionetes ou butô (os gestos de Denise Del Vecchio em um dos seus grandes desempenhos) e a solenidade das execuções (a lentidão calculada de Henrique Benjamin). Em uma hora ilustram como se monta um Estado como, por exemplo, a extinta Alemanha do Oriental onde havia 97 mil funcionários da Stasi – 173 mil informantes para uma população de 17 milhões de pessoas.

É algo próximo embora possa soar distante. Adquire outras caras no cotidiano das repartições públicas ou das empresas. Na pressão das chefias ou ascensão a qualquer custo. Não é preciso se ater a um roteiro histórico e geográfico, e a peça não faz mesmo menção a datas e lugares. O que interessa é a premonição de George Orwell com seu Big Brother (o regime e, pensando bem, o programa de TV). Circuito Ordinário é o subterrâneo onde circulam verdades e mentiras de burocratas assalariados e dos colaboracionistas. Jean-Claude Carrière deve conhecer a biografia da lendária Coco Chanel, a dama da moda e agente F-7124 do serviço alemão na 2ª Guerra. Mas texto e espetáculo estão além do acerto de contas. O alvo é a falta de humanidade

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