Artes, negócios, diversão e comportamento.

Entrevista com Denise Del Vecchio

Em cartaz com “Circuito Ordinário”, e na televisão na novela “Jogo da Vida”, Denise fala de sua história, vida e outras belezas. (por Beatriz Villar)

Denise Del Vecchio é uma atriz como poucas: inteligente, educada, atenciosa e muito talentosa. Tudo isso pode ser comprovado a partir da entrevista que ela nos concedeu. Conhecer um pouco mais sobre essa atriz fascinante é simplesmente maravilhoso.

Ser atriz para você é dom, técnica, vocação, necessidade ou tudo junto?

É quase isso tudo e mais um pouco. Talento, vocação, teimosia, renúncia, técnica, desejo, sorte e amor pelo outro.

Dentro de sua experiência, o que é arte para você? Qual é a função do ator em uma sociedade como a nossa, onde a cultura tem sido cada vez mais banalizada perante o produto, o comércio e o lucro?

Há milhares de teorias sobre a arte e sua função na sociedade, mas você me faz a pergunta a partir da minha experiência. Vamos lá. Quando comecei minha vida no teatro, acreditava firmemente que o teatro poderia mudar o mundo. Doce ingenuidade. Hoje sei que qualquer manifestação artística só muda quem quer se transformar. Quem partilha com o artista a obra, qualquer que seja ela. Um espetáculo, uma música, um quadro, uma escultura, um filme, um livro, dependem dos olhos de quem vê, dos ouvidos de quem ouve, do coração de quem sente e da cabeça de quem pensa. Todas as manifestações artísticas são recortes do tempo ao qual elas pertencem. Interpretações de nós mesmos e da sociedade onde ela é produzida. Se existe uma função para isso é nos lembrar nossa condição de seres humanos e sociais e refletir sobre ela para, quem sabe, nos tornamos melhores.

Denise Del Vecchio e Henrique Benjamin: a informante e o comissário

Proust acreditava que a leitura realizada na infância marcaria o gosto daquele leitor na idade adulta. Revertendo um pouco a teoria do romancista francês, você acredita que a paixão que seus pais tinham pelo cinema marcaria a atriz que hoje você é? Se há tal influência, ela foi consciente?

Só gostamos do que conhecemos. Houvesse nas famílias e nas escolas maior empenho em envolver crianças com o teatro, a música, artes plásticas etc., mais adultos teriam necessidade de produzir e consumir arte. Poderiam ter uma vida mais criativa. Minha mãe gostava muito de cinema, sim, e eu pude assistir muitos filmes maravilhosos na minha infância, mas só entrei num teatro pelas mãos do professor Gáudio, que tinha como matéria oficial geografia, mas ensinava também artes e relacionamento. Nunca me imaginei na tela do cinema. Era virtual demais pra minha cabecinha, mas, ao entrar pela primeira vez no Teatro Municipal de São Paulo e assistir a montagem do TUCA de “Morte e Vida Severina”, comecei a me imaginar lá em cima, no palco. Foi amor à primeira vista. Quando comecei a estudar teatro não imaginava que seria uma atividade profissional.

Conte um pouco para nós sobre sua formação artística.

Do colégio estadual Alberto Conte, no bairro de Santo Amaro, SP/SP., fui para a faculdade de História na USP. Paralelamente, comecei a estudar teatro com Emilio Fontana no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia) de São Paulo. Desse curso fui para o Teatro de Arena de São Paulo, para outro curso com Augusto Boal, Cecília Thumin e Heleny Guariba. A partir dessa turma, alguns alunos ficaram no teatro de Arena fazendo parte do Núcleo Dois do Teatro e foi desse Núcleo que segui carreira. Não tive uma formação acadêmica, porém aprendi que cada espetáculo, cada autor, cada diretor exige profundo estudo de todos os aspectos que envolvem uma montagem. Toda a primeira fase de minha carreira foi baseada no trabalho de Grupo. Foi um trabalho intenso de pesquisa em todas as áreas. Escrevíamos o texto baseados em pesquisa e improvisação, dirigíamos, atuávamos, criávamos a luz, o som, a música, os figurinos, cenários e aprendíamos toda a operação da parte técnica. Foi a época da chamada Criação Coletiva, que buscava diluir as individualidades no trabalho do grupo. Éramos donos e responsáveis pelo espetáculo que produzíamos. Isso foi determinante na minha formação.

Em sua biografia, “Memórias da Lua”, relata-se um episódio em que você recusa um papel e acaba indo para a geladeira na TV Tupi. Lembro-me também de uma história da Zezé Motta, que recusara um personagem na Rede Globo logo após o sucesso do filme “Xica da Silva”, pois a personagem que lhe ofereciam era uma empregada (e a atriz acreditara que, aceitando o papel, reforçaria um preconceito implícito aos negros). Como manter uma postura íntegra, coerente e respeitosa para com sua profissão diante de tantas pressões e instabilidades financeiras do universo artístico? Paga-se um preço alto por isso?

Nem sempre é possível dizer não. Às vezes, não podemos nos dar ao luxo de escolher. Mas sempre procurei ser coerente comigo mesma. Respeitar meus sentimentos. Não dá para fazer um bom trabalho se você não gosta da personagem, ou do texto. Eu comecei a fazer novela na TV Tupi, num papel muito bom na novela “Ídolo de Pano”, de Teixeira Filho com direção do Henrique Martins. Trabalhei com Carlos Zara, que era diretor geral da Teledramaturgia. Era uma jovem atriz de teatro, tratada com muito respeito por grandes profissionais. Até que um diretor, recém chegado à emissora, que não me conhecia, nem tentou me conhecer, me ofereceu um papel inadequado para mim numa novela, que tampouco me agradou. Preferi recusar o trabalho. Precisava muito, pois meu filho era pequeno. Mas sempre acreditei na minha capacidade e nunca deixei de trabalhar. A gente sempre paga um preço pelas escolhas que faz, mas eu não me arrependo.

Para você, o que é a mágica do teatro? Você consegue definir? Há alguma experiência sua que traduza, mesmo que de modo bastante subjetivo, a experiência de se pisar no palco?

Curiosa essa palavra “mágica” aplicada ao palco. O mágico faz um truque que deslumbra a platéia e o fascínio está em não se entender como é realizado o truque. Quando estou no palco, porém, sinto que não escondo nada, pelo contrário, estou totalmente exposta. Nenhum coelho na manga. Talvez essa seja a “mágica”. Sentir-se inteiramente exposto numa das condições mais frágeis que alguém pode se encontrar. Tudo pode acontecer a cada instante em que você está lá, diante da platéia. Todas as noites é uma experiência de princípio e fim de vida e morte. Claro que há a técnica, o controle, as marcas, o texto, o jogo com o outro, mas a maravilha é chegar com isso tudo ao máximo da emoção e da verdade. A mágica é o risco.

Você esteve, de algum modo, ligada ao movimento contra o Golpe de 1964. Seja pelo fato de seu pai ser um homem de esquerda, seja por você ser estudante na época ou frequentar muito o teatro e fazer parte do Teatro de Arena, espaço de discussão e resistência. Como você avalia este período hoje em dia, tanto pelo aspecto pessoal quanto pela formação profissional? E atualmente, para você, qual é a sua avaliação do país em que vivemos? Há algum sentimento do tipo “poderíamos ter sido, mas não somos”? (Do modo mais abrangente, política, cultura, sociedade, valores, enfim: sinta-se à vontade para abordar o tema que lhe for mais confortável ou incômodo).

A indignação e a necessidade de colocar-se contra o regime ditatorial sempre foram tão claras e naturais para mim que ainda me surpreendo quando alguém hoje me diz que na época não tinha noção do que se passava. Que era só mais um governo. Apesar de serem meus anos de juventude, não sinto nenhuma saudade dessa época de repressão e medo. Só quem não viveu sem os valores democráticos pode menosprezá-los. Li esta semana um comentário do Tiago Santiago sobre sua novela, “Amor e Revolução”. Ele disse que o público se surpreende e estranha que personagens do exército sejam torturadores, autoritários, que tenham uma imagem negativa. Aí a gente percebe que o trabalho da ditadura foi muito bem feito. O teatro era, sim, um fórum de discussão e encontro.  Houve muita repressão. Boal foi preso, Heleny assassinada e seu corpo nunca foi encontrado. Nunca tive paciência para partidos e organizações, embora os reconheça como necessários para a sociedade. Mas sempre procurei levar minha resistência através do palco. A ditadura foi um período triste, muito longo, que provocou feridas na nossa sociedade que estão sendo tratadas até hoje no aspecto político, econômico e social. Sou otimista com relação ao país de hoje em vários aspectos. Não há dúvida que a sociedade brasileira vem evoluindo em vários aspectos e se modernizado. Mas é um processo lento que, às vezes, me impacienta. Não consigo entender porque para nós, como nação, a educação e a cultura ainda não são prioridades. Incentivamos o consumo de automóveis e não o de livros????? Construímos estradas, túneis e viadutos para carros ficarem parados e pagamos uma miséria aos professores. Esse, na minha opinião, é o ponto nevrálgico da nossa sociedade hoje.

O que para você é imprescindível para a sólida formação de um ator (refiro-me a leituras, métodos, conhecimento e mais o que lhe vier à mente)?

Hoje contamos com ótimas faculdades de formação artística em diversas áreas. Há uma enorme bibliografia, já traduzida para o português. Há também muitos cursos livres para iniciantes e profissionais. Como em medicina, por exemplo, o ator tem que estar sempre se atualizando. É muito importante ir ao teatro. Conheço pessoas que não gostam de assistir teatro, só de fazer. Aprendemos muito vendo o desempenho de um colega. Mesmo que a gente não goste ou não concorde, aprende. Acima de tudo é preciso manter um agudo senso de observação do mundo que nos cerca. Da riqueza de cada ser humano.

O teatro que você fazia na década de 1970 servia para tirar o espectador de sua cômoda posição e chamá-lo para a reflexão da sociedade de então. Resguardadas a época e a censura que se vivia, é possível hoje fazer esta quebra de letargia? De que forma e em que local (TV, cinema, teatro, etc.)?

Não. O teatro daquela época foi fruto daquele momento. Com a internet o mundo mudou rapidamente, o ser-humano não. O teatro deixou de ser um instrumento de agitação. É hoje local de encontro, reflexão e divertimento. Só haverá quebra de letargia quando e se as pessoas se sentirem insatisfeitas. Pequenos grupos têm manifestado seus desejos e aspirações e me parece que as redes sociais tem sido fundamentais nesses acontecimentos. Talvez seja isso. Hoje tenho muito mais dúvidas e perguntas do que tinha naquela época.

Sua estreia em televisão foi na novela “Ídolo de pano” (TV Tupi, 1974/75). Como foi a experiência? Qual era a sua personagem (que, inclusive, mata o vilão da novela, vivido por Dennis Carvalho)? De que modo você trouxe sua bagagem de teatro para a TV (composição de personagem, técnicas de interpretação, etc.)? Como era o modo de produção da Tupi nos anos 1970?

A personagem se chamava René. Faz muito tempo. Meu filho tinha acabado de nascer e eu precisava deixá-lo em casa para trabalhar. Foi um turbilhão. Tive muita sorte, porque o elenco e a direção eram espetaculares. Recebi muito apoio do Henrique Martins, que lidou com paciência com a minha inexperiência. Minha primeira cena foi com o Denis Carvalho, que já era um ator consagrado de enorme prestígio, além de ser um verdadeiro galã. Minha primeira cena, numa externa, no Horto Florestal de São Paulo, nós fazíamos uma cena romântica que terminava com um beijo. Eu não tinha a menor idéia do que fazer. Não sei se fazia muito frio, ou eu estava gelada de medo. Mas o Denis foi um cavalheiro e resolveu a cena beijando aquela moça dura e gelada. Para se fazer uma externa, na época, o equipamento ia num caminhão de mudanças enorme. As câmeras precisavam “esquentar”, eram pesadíssimas. Não havia as portáteis. Nessa novela, ainda, conheci Laura Cardoso, uma das maiores atrizes brasileiras. Ficava escondida nos cantos do estúdio vendo Laura trabalhar e procurando aprender alguma coisa. Se eu levei alguma experiência do teatro para o estúdio não foi consciente. Simplesmente me atirei de cabeça. “Ídolo de pano” obteve um sucesso enorme. Depois dessa novela, Denis Carvalho e Tony Ramos foram para Globo e poucos anos depois a Tupi fechou.

Em diversas entrevistas e principalmente em sua biografia, você faz honrosas e importantes menções a Alcides Nogueira. Qual a importância dele em sua carreira? Como aconteceu este encontro e o que os une até hoje, não só pelo lado da amizade, mas prioritariamente pelo vértice profissional?

Tenho amor e admiração pelo Alcides. Temos uma identidade de pensamento que se manifestou no instante mesmo em que nos conhecemos. Foi numa leitura da “Lua de Cetim”. Havia na peça a personagem da Dona Candê, uma mulher bem mais velha do que eu naquela época. Mas isso nunca foi obstáculo para mim. Minha vaidade nunca me impediu de fazer qualquer trabalho. É uma das mais belas personagens femininas do teatro brasileiro. Estudando aquele papel, fui me apaixonando por seu criador. Pela forma como ele entende a alma feminina e consegue expressá-la. Os detalhes, a organização do discurso. Tudo. A partir daí, seguimos fazendo muitos outros trabalhos que sempre me trouxeram prazer e reconhecimento do público e da crítica. Até hoje são as palavras do Alcides as que melhores cabem na minha boca.

Dona Bárbara Ventura, de “Força de um desejo” (1999/2000), foi, talvez, uma das personagens mais marcantes em sua carreira na TV. Conte-nos a experiência de se atuar em um texto de época e voltar a trabalhar com Paulo Betti e Alcides Nogueira. Por fim, como construir a personagem que, de devotada mãe e deslumbrada ascendente social, termina a novela por se revelar transtornada em seu amor pelo marido e corroída pelo novo mundo que o título de baronesa acabava de propiciá-la (tendo em conta que telenovela é uma obra aberta)?

“Força de um Desejo” foi uma novela perfeita. Bárbara Ventura tinha um leque tão grande de contradições que era uma delícia e um desafio interpretá-la. Mas isso não era só com minha personagem. A novela toda era riquíssima em conflitos. O elenco era impecável e a direção primorosa. Eu me senti muito à vontade voltando a trabalhar com Paulo Betti, com quem havia feito “Feliz Ano Velho” no teatro. Quando comecei a novela não tinha a menor noção de ela seria a assassina. O maravilhoso de fazer novela é exatamente o fato de ser uma obra aberta. Como na vida, você nunca sabe o que acontecerá no próximo capítulo e como vai reagir a esse acontecimento.

Você, em algum momento, imaginou que sua personagem em “Força de um Desejo” era a verdadeira assassina de diversos personagens?

Acho que já respondi essa pergunta na resposta anterior. Não. Nunca poderia imaginar que aquela mulher quase patética fosse capaz de fúria tão grande. Fiquei impressionada com a trama tecida pelo Gilberto, dando credibilidade a esse acontecimento. Foi maravilhoso.

Acredito que um dos momentos importantes de sua trajetória tenha sido o “Linha direta” sobre o acidente do Bateau Mouche e falecimento de Yara Amaral. Em um instante que se unem muitas pontas de uma mesma pessoa (histórico profissional, memórias afetivas, relações interrompidas, indignação pela injustiça com relação ao acidente, necessidade de interpretar alguém com quem se conviveu), como surgiu o convite e de que modo atravessar uma experiência tão simbiótica sem se perder? Gostaria também que nos contasse sobre o seu trabalho com Yara na novela “Fera Radical” (1988).

Eu trabalhei com Yara em “Fera Radical”, que foi meu primeiro trabalho na TV Globo. Cidade nova, estúdios e pessoal desconhecidos. Tudo diferente. Yara foi uma das pessoas que mais me ajudou a me adaptar e entender os mecanismos da nova casa. Era amante do teatro e falávamos muito sobre isso. Trabalhava na época no Teatro dos Quatro, na Gávea fazendo “Filomena Marturana”, texto do italiano Eduardo de Fillipo. As gravações eram na Cinédia. Estúdio gostoso, distante do Jardim Botânico e do burburinho das outras produções da Globo. Ficamos amigas, choramos na despedida do final da novela, se não me engano no mês de novembro. Ela estava muito feliz por ter conseguido quitar a dívida de sua casa. Na passagem do ano, ligo a tv e me deparo com a tragédia de sua morte. Até hoje não entendo por que fui escolhida para

fazer o papel da Yara no Linha Direta. Me incomodou um pouco, mas achei que devia essa homenagem a ela. Infelizmente, pela própria característica do programa, o foco central era o acidente e não a vida da maravilhosa atriz. Durante a gravação da cena do naufrágio, numa piscina cenográfica enorme, dentro do próprio Projac, quando o barco virou e eu caí na água, lá no fundo senti uma peça de minha roupa enroscar-se nas minhas pernas dificultando minha subida… Fui resgatada por um segurança dos muitos que se encontravam a postos nas bordas da piscina, sem, no entanto, deixar de perceber a ironia da situação.

Ao trabalhar na Record, na década de 1990 e desde 2007, você deve perceber que há uma crítica jornalística especializada em falar mal da emissora por ela estar ligada a uma igreja evangélica. Todavia, não levam em conta que esta é mais uma oportunidade de trabalho para um meio tão reduzido quando a TV. O que você pensa sobre todo este cenário resumido acima? Como você avalia seus trabalhos na Record e a proposta de teledramaturgia da emissora?

Acho que existe, sim, enorme má vontade da imprensa com relação a TV Record. Acredito que existe um forte interesse econômico por trás dessa má vontade. Além disso, nossa imprensa, em geral, é bastante conservadora. E a importância da emissora não é apenas pelo mercado de trabalho que ela amplia, mas, principalmente, pela criação de outras opções para o público. Não só na teledramaturgia. O monopólio da televisão não interessa a ninguém além do dono do próprio monopólio, e um país democrático não podia ficar refém de apenas uma emissora forte. Cheguei a Record há cinco anos e havia apenas dois estúdios. Hoje são dez! Me entusiasma fazer parte desse crescimento. Claro que as dificuldades são grandes, mas a cada novela vejo melhoras substanciais.

Como foi ser escalada para o elenco da primeira novela de Gisele Joras, “Amor e Intrigas”, uma autora estreante, vencedora do Concurso de Novos Autores de Novelas promovido pela Record em 2005?

Quem me escalou para a novela foi o Edson Spinello, diretor com quem tenho feito vários trabalhos e pessoa na qual confio inteiramente. Acho ótimo poder acompanhar e participar do nascimento de uma nova autora. Eu não temo os jovens nem o novo. Tenho mais a aprender do que a ensinar. Gosto de arriscar. Ela foi muito bem e em seguida fiz, da Gisele também, “Bela a Feia”, com uma personagem deliciosa que foi a Vanda.

Qual o maior desafio de sua personagem atual em “Vidas em Jogo”?

Cada novo trabalho é uma nova expectativa e uma nova tensão. Augusta é ainda pra mim um mistério. Estou trabalhando com “luvas de pelica”, pois ela tem um segredo que a autora, Cristianne Fridman, não me revelou. Augusta faz uns telefonas estranhíssimos para alguém que eu não sei quem é. Isso é totalmente novo para mim. É um trabalho no escuro, onde tudo pode acontecer. O fato de Augusta ser extremamente pão dura é um componente também desafiador, pois eu sou o oposto disso. Acho engraçada a forma como ela é sovina. E não entendo como uma pessoa pode ser assim. Talvez me torne, não sovina, mais ao menos mais econômica fazendo a Augusta.

Quais os trabalhos que você destaca como mais significativos em sua carreira? Por quê?

Fiz lindos trabalhos no teatro: “Lua de Cetim”, “Florbela”, “Feliz Ano Velho”, de Alcides Nogueira foram ótimos espetáculos. Mais recentemente “A Cabra”, de Edward Albee. Na televisão: “Força de um desejo”, “Chocolate com Pimenta”. Quando começo um trabalho novo, porém, esse é o mais significativo. É o presente.

Quais trabalhos dos quais você se arrepende ou, com a maturidade, percebe que poderia ter resolvido de outra forma?

Sou uma pessoa que sempre toco pra frente. Não tenho tempo de me arrepender. Penso logo no que vem a seguir. Tento corrigir no próximo trabalho o que errei ou não gostei no anterior. E, de qualquer forma, sempre algo de positivo sobra de qualquer trabalho. Basta saber encontrar.

Pergunta mais do que clichê, mas acredito que, justamente por ser clichê, ela ainda é válida: há algum personagem de outro ator ou época que você gostaria de ter feito ou ainda pensa em fazer?

Não me ocorre nenhum agora. Se já tive esse desejo, hoje caiu no esquecimento.

Quem são os atores os quais você se espelhava no início da carreira? E hoje em dia tem algum?

Eu amo os atores e as atrizes. Nada me dá mais prazer do que vê-los no palco ou nas telas. Gosto de observar as diferentes personalidades em cena. A forma como cada um encara e interpreta seu personagem. E o Brasil é um país rico em talentos. Sempre fui fascinada pela Laura Cardoso. Consegue ser intensa sem perder o humor. Eva Wilma também é uma atriz com profundar do domínio da técnica e muito verdadeira, que eu sempre admirei. Mas como listar os melhores num país com Fernanda Montenegro, Irene Ravache, José Wilker, Marco Nanini, Glória Pires… Posso ficar aqui fazendo uma lista imensa e ainda assim terei cometido injustiças.

Que tipo de personagem você ainda não interpretou na televisão e que tem muita vontade? E no teatro?

Ainda espero uma vilã de verdade na TV. Sei que hoje todos nós atores sonhamos com um vilão. Hoje, os vilões são muito populares e queridos. Reflexo talvez de um aspecto interessante e perigoso dos valores éticos e morais do público. O que interessa é se dar bem não importa como. Gostaria de tentar interpretar essa nuance do prazer na maldade, de pensar apenas em si mesmo e no próprio interesse, de não conseguir se colocar no lugar do outro. Já no teatro sonho mais com projetos e textos, do que propriamente com personagens.

Como você lida com essa nova geração de atores que estão mais preocupados em se tornar famosos do que serem artistas de verdade? É muito diferente de quando você iniciou sua carreira? 

A produção de teledramaturgia necessita de uma constante renovação de seus atores jovens. Hoje, há uma supervalorização da exposição na mídia e a impressão que atores são profissionais bem-sucedidos economica e profissionalmente. Muita gente aparece buscando isso, mas o dia a dia se encarrega de mostrar a realidade da profissão. Eu encaro isso com naturalidade. Gosto mais de uns do que de outros, como em qualquer grupo de trabalho, e aprendi que os cometas passam e as estrela ficam. Há muitos atores e atrizes dedicados e talentosos na nova geração.

Em seu currículo há muitos trabalhos na TV e diversas atuações no teatro. Entretanto, há apenas três filmes. Por que houve esse descompasso entre TV, cinema e teatro? Falta de oportunidade ou ausência de bons papéis no cinema?

Não tive tempo ou oportunidade de me aproximar mais da produção cinematográfica. O relacionamento é importante em qualquer círculo profissional. Conheço poucos diretores e produtores. O cinema brasileiro passou muitos anos com imensas dificuldades de produção, que era muito pequena. E hoje não há muitos papéis para mulheres na minha idade. Como também estou sempre ocupada na TV ou no teatro, quando ocorre o convite há problemas de agenda. Vários fatores me deixaram longe do cinema, infelizmente.

(por Beatriz Villar)

Compartilhar

Deixe o seu comentário